O sino tocava antes mesmo do sol pintar o céu.
Era um som redondo, de bronze acordando o barro.
Não era um alarme - era um chamado.
Chamado ao dever. Chamado à fé. Chamado à vida.
Em Belo Monte, o dia não começava com pressa.
Começava em uníssono.
Era como se cada pessoa fosse uma nota, e o povo inteiro uma canção.
As mulheres acendiam o fogo com mãos precisas, murmurando orações enquanto mexiam a água para o café.
O cheiro do carvão, da madeira molhada e do milho torrado subia como incenso nas cozinhas de taipa.
As crianças despertavam com suavidade, embaladas pelo som do sino e da fé.
Não havia berros - só cantigas, e o calor do colo materno.
As mais velhas enrolavam panos na cabeça, ajeitavam as saias, e já preparavam o almoço - como quem prepara um altar.
Enquanto isso, os homens amarravam os cadarços de couro, penduravam suas ferramentas nas costas e saíam.
Saíam juntos - em passos cadenciados, como uma procissão laica.
Não havia patrão. Havia propósito.
Tudo era vivo.
O sino, o vento, os passos na terra seca.
A voz de um vaqueiro que soltava um aboio tímido só pra dizer:
'Tamo vivo, meu povo.”
E estavam.
Vivos, despertos, unidos.
Cada gesto do amanhecer em Belo Monte era um testemunho de que a fé não mora só na igreja, mas também na brasa do fogão, na palma que esfrega os olhos do filho, na enxada que já espera o primeiro golpe de terra.
Era nessa harmonia que a cidade acordava.
Não como máquina.
Mas como corpo vivo.
Como povo.
Como milagre.