Logo cedo, quando o sol esticava seus primeiros raios sobre o dorso das serras, eles desciam.
Homens fortes, experientes, com o machado no ombro e a foice pendendo da mão calejada.
Desciam até o rio - o Vaza-Barris, aquele que conhecia a sede do povo e os sussurros das madrugadas.
Não havia mapas.
Havia intuição.
O olhar de quem sabia ler o chão, o cheiro, a cor da folha.
Ali onde a terra cedia com facilidade, onde a sombra se inclinava com mansidão, ali era lugar bom.
Ali podia germinar um novo mundo.
Antônio Conselheiro dizia:
'Planta, meu povo… mesmo quando a terra parece pedra.
Porque o Senhor prometeu que aquele que confia n`Ele será como árvore plantada junto às águas… que estende suas raízes para o ribeiro, e não teme o calor, nem se abala no tempo da seca.'
(Jeremias 17:8)
Eles acreditavam.
E por isso, derrubavam a vegetação do quadrante escolhido -
com machados, facões e foices -
não por destruição,
mas por renovação.
Cada tronco tombado era um rito.
Cada golpe na madeira soava como tambor antigo.
O eco das lâminas batendo no cerne da árvore marcava o compasso da fé.
Toc-toc. Pausa. Toc-toc.
Era como se a mata respondesse em silêncio - sabendo que seria oferenda, não vítima.
O suor escorria, a madeira gemia, o vento levava a poeira das folhas - e tudo ali era parte de uma música que só o Sertão sabia dançar.
Ao fim, queimavam os restos em uma grande coivara.
A madeira aproveitada - virava tábua, coluna, cruz.
Nada se perdia.
Tudo servia.
Tudo era sagrado.
O primeiro agrupamento - chamavam de 'os abridores' - seguia à frente. Homens experientes, de mãos firmes e costas encurvadas como raízes.
Abridores de terra, de vereda e de destino.
Derrubavam um quadrante, limpavam, queimavam, cravavam estacas para demarcar.
Quando terminavam, iam adiante.
Ao longe, via-se a fumaça subindo dos novos terrenos.
Como colunas de oração.
Eram sinais no céu: 'Aqui nasceu mais um pedaço de Belo Monte”.
As mulheres vinham logo depois, com sementes nos bolsos, e as crianças correndo por entre as faixas limpas de terra, brincando de plantar bonecos de sabugo.
O chão se transformava em ventre.
Era assim que se começava uma nova vida por ali:
Com fé nas mãos e fogo nos olhos.
Não se cultivava só mandioca, milho, feijão.
Cultivava-se também justiça.
Partilha.
E o direito de permanecer.