Em 1893, cansado de anos de peregrinação pelos sertões e já visto como um 'fora da lei', Antônio Conselheiro decidiu fincar raízes. Escolheu a margem norte do Rio Vaza-Barris, num pequeno arraial chamado Canudos.
Ali, no coração ressequido do sertão, nasceu uma experiência extraordinária: Belo Monte - como o rebatizou Conselheiro, apesar de ser um vale cercado por colinas - tornou-se um refúgio para os deserdados da terra.
Era um lugar onde os flagelados da seca e os abandonados da vida eram recebidos de braços abertos.
Uma comunidade em que todos tinham direito à terra e ao trabalho, longe das agruras e humilhações impostas pelos capatazes das velhas fazendas.
Um 'lugar santo', diziam seus seguidores.
Durante o tempo em que liderou o povoado de Belo Monte, Antônio Conselheiro escreveu os Apontamentos dos Preceitos da Divina Lei de Nosso Senhor Jesus Cristo para a Salvação dos Homens - uma coletânea de reflexões de natureza profundamente religiosa, que buscava orientar a vida daquela gente sofrida.
Belo Monte atraiu milhares de almas: agricultores pobres, indígenas, ex-escravos recém-libertos - todos em busca de um novo começo.
A comunidade florescia pela solidariedade. Ninguém passava fome: o trabalho era coletivo, o sustento era partilhado.
Naquela terra árida, a fé não era apenas um consolo: era instrumento de libertação social.
Ali, o sertão mostrava que podia germinar não apenas plantas - mas esperança.