O ano é 1893.
Estamos no sertão da Bahia.
E algo está prestes a acontecer…
Uma cidade começa a nascer.
Não com pedras e decretos,
Mas com fé, poeira e promessas.
Essa cidade vai se chamar Belo Monte.
Mas para compreender seu nascimento,
precisamos voltar nove anos no tempo…
Voltamos a 1888.
E todo aquele que nasceu no Brasil, deveria saber de cor que foi nesse ano que o Império assinou a Lei Áurea.
A interpretação popular ou poética da época disse que o decreto se resumiu em apenas duas palavras… 'Libertos, sim” e nada que fosse últil.
Na verdade, podemos dizer 'Libertos, sim” - mas sem terra, sem casa, sem futuro.
Homens e mulheres que haviam sido tratados como mercadoria agora eram soltos como gado abandonado depois da feira.
Muitos vagavam pelas estradas,
com os filhos no colo, a barriga vazia e um nome que ninguém chamava.
No ano seguinte, 1889, a monarquia caiu e o Brasil virou República.
Mas pra quem vivia no chão duro do sertão, o novo regime era só um retrato mudado na parede do poder.
A promessa era liberdade.
Mas a terra seguia nas mãos dos mesmos.
Os latifundiários - senhores da seca e do chicote - continuavam mandando.
O povo pobre do sertão, indígenas expulsos das matas, ex-escravizados largados à própria sorte,
caboclos humilhados pelos coronéis, viúvas, órfãos, beatas e retirantes…
Todos sabiam: a República não era pra eles. Era um outro nome pra mesma ferida.
E no meio desse abandono, a seca vinha como sentença.
A fome roía os ossos. O imposto cobrava até o fiapo da esteira.
E a terra, rachada, negava o sustento.
Mas foi ali, entre a dor e o pó, que uma voz se levantou.
Um homem simples, de túnica gasta, começou a pregar…
Não apenas a salvação das almas, mas a redenção dos corpos esquecidos.
Ele falava de justiça.
De um lugar onde o pobre teria abrigo.
Onde o pão não custava vergonha.
Onde a fé não servia aos ricos.
Onde a cruz caminhava com os humildes.
E o povo ouviu.
Ouviu com os ouvidos do corpo, e com os ouvidos da esperança.
E começou a seguir.
Vinham de todos os cantos.
De pés descalços, mãos vazias e corações cheios.
Caminhavam com sede - mas sede de dignidade.
Foi assim que começou Belo Monte.
Não como cidade. Mas como um clamor.