Meus pés doem.
Já perdi a conta dos caminhos.
Só sei que vim… porque ficar era morrer devagar.
A poeira me cobre o corpo como uma segunda pele.
A pele que carrega cicatrizes - de ferros, de fome, de desprezo.
Eu, que nasci sem nome no papel, sou filho de mãe preta calada e pai sumido no mato.
Fui vendido, esquecido, largado.
A lei diz que sou livre…
Mas de que adianta liberdade sem terra, sem casa, sem voz?
Já bati em muitas portas.
As cidades me negaram.
As fazendas me chutaram.
Até a Igreja - com seus bancos cheios de brancos - me mandou rezar do lado de fora.
E agora aqui estou.
Magro, suado, com sede.
Sede de água… mas também sede de ser. Sede de existir.
Foi então… que ouvi uma voz distante...
Uma voz vinda não sei de onde. Forte, mas serena.
Não era de um padre, nem de um coronel.
Era de um homem que parecia saber o que eu carrego nas costas.
(Antônio Conselheiro)
Escutem a palavra que vem do Alto! Nosso Senhor Jesus Cristo caminhou entre os pobres, os aflitos, os esquecidos. Ele não escolheu os palácios dos reis, mas as estradas empoeiradas, como as que aqui percorremos. Assim como Ele multiplicou os pães para alimentar a multidão faminta, aqui compartilhamos o fruto do nosso trabalho, para que ninguém mais conheça a fome e a sede.
Lembrem-se das palavras do Nosso Senhor Salvador: `Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.` Aqui, neste novo Belo Monte, buscamos aliviar o peso que o mundo colocou sobre nossos ombros. Não temam os poderosos deste mundo, pois o Reino de Deus pertence aos humildes e puros de coração.
A cruz que carregamos não é símbolo de derrota, mas de esperança e salvação. Assim como Cristo venceu a morte, nós venceremos as tribulações deste mundo. Unidos na fé e no trabalho, construiremos um lugar onde a justiça divina prevalece sobre as leis dos homens.
Arrependam-se de seus pecados, perdoem seus inimigos e vivam conforme os mandamentos do Senhor. Pois é na pureza de coração e na comunhão fraterna que encontraremos a verdadeira paz. Sigamos juntos, como discípulos do Cristo, na construção do Reino que não é deste mundo, mas que começa aqui, entre nós.
Nesse momento senti um arrepio.
Como se o céu se abrisse e me chamasse.
Como se alguém, enfim, dissesse: 'Eu vejo você.”
Não prometeu ouro.
Nem perdão comprado.
Mas me deu o que ninguém nunca me deu:
Um lugar.
Um chão onde eu possa plantar meu nome.
Ali, debaixo do sol, entre outros iguais a mim, eu não era mais resto.
Eu era… povo.
Povo que reza, que canta, que luta, que ergue cidade com barro e esperança.
E foi assim que começou.
Não com lei. Mas com escuta.
Eu não sabia ainda…
Mas estava chegando em Belo Monte.