Em 1874, no estado de Sergipe, o jornal O Rabudo trouxe à luz a primeira menção pública a Antônio Maciel como um penitente errante que já se tornava conhecido pelos sertões:
'Há seis meses que, por todo o centro desta Província e da Província da Bahia, vindo, diz-se, do Ceará, infesta um aventureiro santarrão que se apelida Antônio dos Mares. À vista dos aparentes e mentirosos milagres que lhe atribuem, o povo passou a tratá-lo por São Antônio dos Mares. Esse personagem misterioso, trajando uma enorme camisa azul - suja como hábito de penitente -, exibe cabelos espessos e sebosos, entre os quais se movem abertamente uma multidão de piolhos. Distingue-se pelo ar enigmático, olhos baços, tez desbotada e pés nus, compondo a mais degradante figura que se possa imaginar.'
Já famoso como 'homem santo' e peregrino, Antônio Conselheiro seria preso em 1876, nos sertões da Bahia, sob o rumor de ter matado mãe e esposa. Conduzido ao Ceará para investigação, ficou provado que não havia crime algum: sua mãe morrera quando ele ainda tinha seis anos de idade. Conselheiro foi libertado e retornou aos sertões baianos.
Em 1877, o Nordeste mergulhou na tragédia da Grande Seca - uma das mais devastadoras de sua história. Famintos e sem rumo, multidões de flagelados se arrastavam pelas estradas, buscando socorro governamental ou auxílio divino. Bando após bando de desesperados, misturados a criminosos, faziam justiça à margem da lei: saqueavam fazendas e vilarejos, pois, na ética da fome, 'roubar para não morrer' deixava de ser crime.
Foi nesse cenário de miséria e desespero que a figura de Antônio Conselheiro cresceu entre os sertanejos pobres. Para muitos, ele era o 'Bom Jesus' - um enviado divino que caminhava entre eles para aliviar seus sofrimentos.
Com o fim da escravidão, em 1888, levas de libertos, expulsos das fazendas onde antes trabalhavam, sem rumo nem sustento, também partiram em busca de Conselheiro.