O solo já limpo recebia o grupo da semeadura - gente que chegava com as mãos cheias de grão e o coração cheio de esperança.
Os homens abriam sulcos na terra, retos como promessas bem traçadas.
As mulheres, curvadas pela cintura, depositavam as sementes e cobriam as covas como quem embala filho recém-nascido. Era um silêncio sagrado - cortado pela enxada, pela sandália no pó, ou por um bendito canto ecoando no ar.
As crianças seguiam por perto, aprendendo o alfabeto da terra com as próprias mãos, ao ajudar seus pais.
As sementes lançadas não brotavam só em milho e feijão.
Brotavam em vínculo, em pertencimento. Brotavam em uma certeza de que 'essa terra também é minha.”
Não era só o grão que mergulhava no chão: eram os sonhos, as dores e as preces do povo. Cada gesto de plantar era também um gesto de confiar.
De acreditar que dali, do barro quente, brotaria vida - não só para os corpos, mas para as almas.
A força emanada desses corações nordestinos ecoava pelas camadas da terra, e subia como incenso invisível aos céus. Conectava-se aos espíritos ancestrais, caboclos que pisaram aquelas trilhas milhares de anos antes.
E ali, entre cada semente lançada, uma falange de luz dançava com o povo, celebrando a melodia da vida.
Portanto, era mais do que plantar. Era despertar a terra adormecida com os pés no chão e o céu esquecido com o coração.
Naquele instante, o Sertão já não era seco. Era sagrado.
E o que brotava dali não era só alimento, mas um chamado eterno - de volta às origens, ao espírito, à profecia de povos antigos.